Eu sempre me pergunto se vivo uma mentira, temendo ser engolida por ela e morrer sem ter conhecido a verdade. Mas o que é a verdade? As vezes nos damos conta de que apesar de termos passado a vida toda convivendo com alguém, não o conhecemos. As vezes nem sabemos quem somos nós mesmos. Se agimos de maneira errada, mesmo nos arrependendo amargamente depois, as atitudes não foram forçadas, talvez impensadas, mas nossas. E sempre temos que arcar com suas consequências. Algumas mentiras vêm do simples fato de mascarar o errado para não ter de encarar tais consequências. E o mundo é um emaranhado dessas mentiras "singelas", mentiras medrosas, particularmente irritantes, que nos tiram do sério. Outro motivo para as mentiras é querer o melhor de todas as alternativas fingindo escolher uma delas e desfrutando apenas as coisas boas e doando "caridosamente" todos os esforços e dificuldades de cada uma delas a uma terceira pessoa. Já ouvi dizer que a vida é uma droga, mas a vida só gosta de quem gosta dela. Invejo os loucos que riem das tragédias, acham graça da vida e dão bom dia aos estranhos. Enquanto outros choram lágrimas de sangue por bobagens, se enclausuram e têm medo da própria sombra. As vezes vejo a vida como um misto disso: mentira, medo, lágrimas e loucos. Cada dia mais eu tento ser uma louca, mas é tão difícil! Talvez tenha o dom para a dramaturgia, é o único meio que encontro onde encaixar tanto drama transformado em palavras.
Quando li "Poliana" tentei entrar na onda do "Jogo do contente", que para quem não sabe é uma maneira de ver um lado bom em tudo, que de fato tudo, ou quase tudo, tem um lado ruim e outro bom, mas não consegui muito êxito.
Se prestarmos muita atenção todos nós temos nosso momento "jogo do contente", mas a maioria tem um jeito muito estranho de jogar. Como quando comparamos nosso sofrimento com o do outro e nos sentimos melhores por sermos menos "sofridos". Peculiarmente humano e medíocre. O certo seria nos compararmos com essas pessoas, como as vítimas do terremoto no Haiti, e percebermos o quão ridículos estamos sendo. Loucos são eles e loucos todos nós deveríamos ser. Menos medíocres e mentirosos, menos repulsivos e infelizes. Mais verdadeiros e amigos, mais felizes com a simplicidade da vida, somente mais loucos.
Por: Bia Siqueira.